Os doadores estão relutantes, uma vez que o Brasil, sob Jair Bolsonaro, vem destruindo o sistema de proteção ambiental, minando os direitos indígenas e defendendo as indústrias que impulsionam a destruição da floresta

Manuela Andreoni & Ernesto Londoño / The New York Times, O Estado de S.Paulo

Enquanto Joe Biden reúne a comunidade internacional na cúpula do clima, o Brasil promete acabar com o desmatamento ilegal até 2030. Há um porém: Jair Bolsonaro quer bilhões de dólares para a iniciativa. Os doadores estão relutantes, uma vez que o Brasil, sob Jair Bolsonaro, vem destruindo o sistema de proteção ambiental, minando os direitos indígenas e defendendo as indústrias que impulsionam a destruição da floresta. “Ele quer dinheiro novo sem restrições reais”, disse Marcio Astrini, que dirige o Observatório do Clima, organização de proteção ambiental no Brasil. “Este não é um governo confiável.” 

Por dois anos, Bolsonaro pareceu não se incomodar com sua reputação de vilão ambiental. Sob sua supervisão, o desmatamento na Amazônia atingiu o nível mais alto em mais de uma década. A destruição impulsionada por madeireiros provocou indignação global em 2019, quando enormes incêndios consumiram a floresta.

Donald Trump fez vista grossa. Mas, desde que a Casa Branca mudou de mãos, os Estados Unidos começaram a pressionar o Brasil para conter o desmatamento. Assim que Joe Biden assumiu, funcionários de seu governo começaram a se reunir com o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, para buscar pontos comuns antes da reunião climática. As reuniões a portas fechadas foram vistas com apreensão pelos ambientalistas, que desconfiam do Brasil. As negociações provocaram campanhas para pedir que os americanos não confiem no governo brasileiro.

Desmatamento no Pará
Apreensão de madeira extraída ilegamente no entorno da BR-163 (entre Novo Progresso, Altamira e Itaituba), após operação da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará em novembro de 2019 Foto: SEMAS / Divulgação

A demanda por dinheiro adiantado foi recebida com ceticismo por diplomatas, que argumentam que o único déficit real do Brasil é de vontade política. Suely Araújo, ex-diretora do Ibama, disse que o Brasil já tem acesso a centenas de milhões de dólares do Fundo Amazônia que poderiam ser gastos em esforços de conservação. “A cara de pau do governo em pedir recursos no exterior é gritante”, disse Suely. “Por que ele não usa o dinheiro que já está aí?”

Muitos governos desconfiam do Brasil. O Orçamento que Bolsonaro apresentou ao Congresso inclui o menor nível de recursos para agências ambientais em duas décadas. Além disso, Bolsonaro apoia um projeto de lei que daria anistia aos grileiros, medida que abriria uma área da Amazônia do tamanho da Flórida para a exploração. Outra iniciativa tramitando no Congresso brasileiro facilitaria operações de mineração em territórios indígenas. Por isso, especialistas dizem que há poucos motivos para acreditar na conversão ambiental de Bolsonaro. 

*SÃO JORNALISTAS

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