Algo no ar

Por
Paulo Polzonoff Jr. – Gazeta do Povo

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Não é ódio duradouro, empedrado. Meu ódio está mais para um mal-estar, um flato espiritual desses que a gente solta envergonhado,| Foto: Bigstock

Até eu, que não odeio ninguém (e não odeio mesmo!), nestes tempos conturbados me pego odiando. Há alguma coisa no ar, não sei se o chumbo acumulado na atmosfera desde o início da Revolução Industrial ou sutis forças gravitacionais de Júpiter e Saturno ou ainda invisíveis íncubos e súcubos. Há algo de tenso, de carregado, de satânico, de mortal.

Por mais que eu me esforce, quando dou por mim, assim no meio do dia, diante da televisão ligada na CPI da Covid ou num telejornal qualquer, estou odiando. E não adianta desligar a telinha. Se me jogo sob a água quente do banho, antes um refúgio, me vem à memória a voz esganiçada de um minissenador e não dá outra: é ódio mesmo. Se toca o interfone, me lembro da vizinha que judicializou a lixeira do condomínio e… adivinha! Até os sabiás que me acordam pontualmente às 4h30 são vítimas desse sentimento baixo, que serpenteia em meio às moitas da virtude desde que o mundo é mundo.

Em minha defesa, posso argumentar que meu ódio é total e absolutamente estéril. E tão passageiro quanto um espirro. É uma coisa assim à toa, uma sinapsezinha que quase nem se completa, de tão fraca, coitada. Não escrevo virulentos ataques, não esmurro a porta, não xingo nem saio por aí querendo a eliminação de ninguém. Não construo gulags no meu coração. Longe de mim! Meu ódio está mais para um mal-estar, um flato espiritual desses que a gente solta envergonhado, mas que simplesmente não dá para segurar. Desculpe.

Mas é ódio, sim, reconheço morrendo de vergonha. É ódio no sentido de ser o oposto do que entendo por compaixão. Sou humano, vocês que me perdoem, mas sou. E às vezes a capacidade de compreensão e o consequente perdão me escapam e baixa em mim um espírito justiceiro que não aceita o que ouço, o que vejo, o que leio, simplesmente porque não é possível que aparentemente todo mundo à minha volta tenha desistido de alcançar uma espécie de santidade, de elevação, de transcendência. De excelência.

Ou você imagina Omar Aziz, depois de um dia de “trabalho”, fazendo o exercício de Sêneca e refletindo sobre seus atos anteriores, correndo o risco de se descobrir mais-do-que-falho e disposto a se emendar quando raiar um novo dia? Tampouco dá para imaginar Luciano Hang resistindo à sedução das multidões. Sem falar nos meus colegas jornalistas que agora deram para abdicar de qualquer princípio em nome desse objetivo discutível que é derrubar um governo.

Não é possível, penso, embriagado dessa indignação inútil, sempre inútil, que os bons tenham se entregado assim tão fácil ao enfado e ao cinismo. Não é possível, leitor amigo, que você tenha se deixado seduzir pelo prazer rápido e superficial de um like. Não é possível, pô, que você tenha engolido de bom grado (e por vontade própria) essa pílula do antropocentrismo que consola, mas não salva. Não é possível essa pandemia de obediência cega. Não é possível, minha querida leitora, que você realmente prefira passar o que resta da sua vida abduzida por certezas próprias e alheias.

Antes que apareça um ministro do STF para me enquadrar num crime recém-tirado da cartola que lhe enfeita a famosa calva, convém repetir que meu ódio se dissipa facilmente. Basta um sorvetinho ou um ronrom da Catota ou um sorriso da mulher ou Nelson Freire tocando o Noturno #2. Mas esse ódio, impotente que é diante dos moinhos de vento da política, deixa marcas nessa alminha russa aqui. Umas cicatrizes fundas. A pele em carne viva. Ódio é de fogo – qualquer esotérico de esquina sabe disso.

Depois de me livrar do ódio-fátuo, saio do banho ou desligo a televisão ou jogo o celular na parede. Esbaforido e sentindo aqui e ali a carne fumegando, olho em volta e noto com alívio que no entorno tudo está tranquilo: há futuros a almejar, mulher para beijar, filho para sorrir e até aquele pratão de feijão, arroz e carne moída para devorar. Para o apartamento vazio digo bem baixinho (não quero acordar os vizinhos) que nunca mais me deixarei levar pelo ódio, este ou aquele ou qualquer outro. Nunca.

No instante seguinte, porém, fracasso. Porque o ódio às figuras que voam e zumbem em torno de um monte fétido de política imediatamente dá lugar ao ódio direcionado ao homem que não se permite ser falho. Que não se permite nem mesmo odiar um odiozinho que, veja bem, é só uma cosquinha inofensiva, um bufar mais demorado, um revirar de olhos. E que acalenta e nutre um profundo medo de morar para sempre no gulag do coração de alguém.


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