O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 registrou 33 milhões de eleitores ausentes, o que corresponde a 21,08% da população apta a votar. O índice supera todas as eleições anteriores ao segundo turno desde 1998, quando a abstenção foi de 21,49%.

"O segundo turno acende um alerta ainda maior para a abstenção. Com 21 governos estaduais definidos, a eleição presidencial será a única disputa em grande parte do país", explicou o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB).

Destaques:

  • 33 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno
  • Murilo Medeiros (UnB) aponta polarização como causa
  • Estratégia de mobilização será foco no segundo turno

Abstenção histórica e contexto recente

A taxa de 21,08% é a maior para o primeiro turno presidencial desde as eleições de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi reeleito com 21,49% de ausentes. Após esse pico, houve recuperação nas urnas, mas a partir de 2018 o percentual voltou a subir, ultrapassando 20% e crescendo gradualmente nos pleitos subsequentes.

Motivos apontados pelos eleitores

Diversos relatos coletados pelo g1 revelam causas como burocracia, falta de acessibilidade e desânimo político. Roberto Gepp, estudante de economia, não transferiu o título após mudar de Brasília para São Paulo, perdendo o direito de votar. Henrique Eduardo Bahouth, 73, desistiu ao encontrar fila enorme e zona desorganizada. Bianca Dantas não conseguiu votar por falta de acessibilidade após cirurgia no joelho.

"A percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças concretas favorece o afastamento do eleitor das urnas", afirmou Medeiros.

Impacto regional e desafios para o segundo turno

Dados do TSE mostram que as regiões com maior abstinência foram o Sudeste (22,7% – 15 milhões de eleitores) e o Centro‑Oeste (21,7% – 2,6 milhões). No Nordeste, 18,4% (8 milhões) deixaram de votar, embora a região tenha favorecido Luiz Inácio Lula da Silva.

"Aumentar o comparecimento, portanto, não significa aumentar os votos de Lula. Tudo depende do perfil político de quem ficou em casa", destacou o cientista.

Perspectivas para a disputa final

A Justiça Eleitoral permite que quem faltou ao primeiro turno vote no segundo, pois cada turno é considerado um pleito independente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado estratégias de comunicação para reverter a abstência, mas Medeiros alerta que mobilizar eleitores será um dos maiores desafios.

"Embora o voto seja obrigatório no Brasil, a multa pelo não comparecimento é irrisória. O custo e as dificuldades para chegar às urnas, especialmente para eleitores de renda mais baixa, superam o valor da própria penalidade", explicou.

O cenário aponta para uma campanha intensificada nos estados, onde a mobilização local será decisiva para reduzir a abstenção e definir o resultado da disputa presidencial.