A Previdência Social registrou 377 afastamentos por ludopatia nos primeiros oito meses de 2026, supera o total de 2025. O gasto acumulado chegou a R$ 4,8 milhões desde junho de 2023, segundo levantamento exclusivo do g1.

Expansão das apostas online e aumento dos casos

A escalada acompanha a liberação das casas de apostas digitais em 2018. Até 2022, os afastamentos giravam em torno de dez por ano; em 2023, o número começou a subir, atingindo 377 em 2026. O CID F63.0 registra apenas jogo patológico, excluindo casos que se manifestam como ansiedade ou depressão.

"A pasta e os especialistas citam quadros como depressão e ansiedade, os mesmos que tiveram recorde de afastamento em 2024 e 2025, em sequência. Em 2025, foram mais de meio milhão de trabalhadores afastados por saúde mental", afirmou fonte do g1.

Impacto financeiro nas famílias e no Estado

Além do custo direto ao INSS, as apostas geraram R$ 62,5 bilhões de saída líquida do orçamento familiar em 2025, segundo o Boletim Fiscal dos Estados. O governo arrecadou R$ 15,3 bilhões até agosto de 2024, mas especialistas apontam que o dinheiro volta em forma de endividamento e despesas de saúde.

"É um dos maiores desafios de saúde mental do país e o SUS não está preparado. O sistema tem necessitado de mais profissionais, espaços de CAPS, treinar médicos, aumentar o atendimento. Além de medicações", explicou o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo.

Caso emblemático: Vitória Macedo

A atendente de telemarketing Vitória Macedo, 29 anos, perdeu mais de R$ 30 mil em apostas, incluindo saque do FGTS, e precisou se afastar para tratamento. Ela relata:

"Eles me mostravam o ganho e aquilo me seduziu, sabe? Só que por trás da situação toda, elas estavam perdendo muito dinheiro. Eu é que não sabia", explicou.

"Eu tirava dinheiro de uma, jogava pra outra, jogava pra outra, e aí eu ia perdendo, perdendo, perdendo. Gastei meu décimo terceiro, gastei meu salário, fiz empréstimo, peguei dinheiro do FGTS, tudo no mesmo dia", contou.

Vitória continua trabalhando, mas paga a dívida em 12 parcelas e mantém o nome negativado.

Distribuição regional dos afastamentos

São Paulo concentra 297 benefícios, seguido por Minas Gerais (110), Rio Grande do Sul (76), Rio de Janeiro (68) e Paraná (58). O aumento rápido reflete a facilidade de acesso ao jogo via celular, conhecido como “tigrinho”.

Metodologia do levantamento

O g1 utilizou dados do Portal de Dados Abertos do INSS, aplicando o salário mínimo vigente a cada período de afastamento. O cálculo só foi possível a partir de junho de 2023, quando o tempo de afastamento passou a constar nos registros.

A tendência indica que os números de 2026 já superam o total de 2025, sinalizando que o problema pode se aprofundar sem intervenções eficazes.