O assessor especial de assuntos internacionais do presidente Lula, Celso Amorim, declarou que o "Escudo das Américas" lançado por Donald Trump tenta impor um "cerco" e uma "dominação absoluta" ao Brasil, usando como justificativa um combate ao crime organizado que ele considera "falso".

A iniciativa reúne presidentes latino‑americanos alinhados a Trump, como Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia) e Nayib Bukele (El Salvador). No mês passado, após solicitação dos EUA, o grupo assinou acordo que classifica facções criminosas como "ameaças compartilhadas" e as torna alvos de sanções.

"Agora, sim, nós sofremos ameaça. Veja bem, essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil em cerco, cercado com base em argumento falso, que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional. [...] Na realidade, é um esquema de dominação absoluta", afirmou Amorim em entrevista ao canal Tutaméia, no YouTube.

Facções brasileiras como alvo

Entre os 24 grupos citados no acordo, destacam‑se as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). O governo Lula classifica a medida como "muito grave" e a vê como potencial porta de entrada para intervenções militares na região, similar ao que ocorreu na Venezuela e na Colômbia.

Motivações políticas dos países latino‑americanos

Segundo fontes do Palácio do Planalto, os países da coalizão buscam manter boas relações com o Brasil, mas apoiam a iniciativa por diferentes razões: enquanto Milei, Bukele e Espriella o fizeram por alinhamento automático a Trump, Equador, Paraguai e Panamá participaram para obter recursos financeiros e evitar pressões militares dos EUA.

Tarifas americanas como ferramenta de intimidação

Em 2024, a Casa Branca anunciou dois "tarifaços" contra produtos brasileiros:

  • 25% por supostas práticas desleais brasileiras em áreas como PIX, etanol, propriedade intelectual e desmatamento;
  • 12,5% por alegada falha na coibição de importações de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

Negociadores brasileiros avaliam que as tarifas tiveram motivação política, já que os EUA desconsideraram dados apresentados e usaram argumentos improcedentes, como a ideia de déficit comercial bilateral, embora a relação seja superavitária para os EUA.

"O tarifaço não foi uma medida econômica, tanto que eles tiveram que voltar atrás de algumas porque a própria Suprema Corte disse que eram ilegais. O tarifaço foi uma medida de intimidação. A gente procura tentar levar isso de uma maneira como se fosse para poder negociar alguma coisa, mas na realidade é uma medida de intimidação", disse Amorim.

"É que o Lula e o Alckmin não têm medo de tarefas difíceis, eles enfrentam. Essa é a questão. E eles [EUA] querem alguém que se acomode e faça o que eles querem, pra ser um grande Porto Rico, com todo respeito ao povo de Porto Rico", completou o assessor.

Perspectivas para o Brasil

Amorim e demais assessores do governo Lula consideram que a rotulação das facções PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA não resolve o problema do crime organizado e pode servir apenas como pretexto para pressões políticas e econômicas sobre o Brasil.