Cacau brasileiro conquista mercados e preserva florestas
O Brasil controla toda a cadeia produtiva do cacau e intensifica a aposta na qualidade para acessar mercados internacionais. O setor destaca o modelo de cultivo em cabruca, que mantém áreas de Mata Atlântica e agrega valor ambiental ao produto.
Cabruca: cultivo tradicional que protege a floresta
André Luiz Carvalho Scampini, secretário‑executivo da Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (ACAU), explica que a cabruca consiste em plantar o cacau sob a cobertura da mata nativa. "O cacau é uma forma de preservar o ambiente. Por quê? Porque um sistema mais tradicional de plantio do cacau é a cabruca…".
A origem amazônica do fruto exige sombra e água, condições que a cabruca oferece naturalmente. "O cacau é um fruto da Amazônia brasileira. Ele não é sul‑americano. Ele surgiu na Amazônia brasileira…" afirma Scampini, ressaltando a ligação entre a espécie e o ecossistema florestal.
Indicação geográfica e diferenciação de terroir
No norte do Espírito Santo, a cidade de Linhares recebeu a primeira indicação geográfica brasileira para amêndoas de cacau. "Nós temos a indicação geográfica, o Cacau Linhares. A indicação geográfica é a mesma coisa que champanhe, bordô, Borgonha ou Serra da Canastra. A nossa é a pioneira", destaca o secretário.
Segundo ele, o terroir da região — microclima, solo e água — confere ao cacau características únicas: aroma mais frutado, sabor suave e maior concentração de manteiga de cacau.
Estratégia de exportação e demanda por preço justo
Produtores brasileiros participam do Salão do Chocolate e da Patisserie, em Paris, entre 28 de outubro e 1º de novembro, para apresentar a qualidade do cacau ao público europeu e asiático. "Vamos levar essa qualidade para a Europa também. Estamos de olho na Ásia, que é um mercado que está crescendo muito", afirma Scampini.
Ivaldo de Santana, expositor do Pará, e Marco Lessa, coordenador da missão brasileira em Paris, cobram remuneração mais justa. "Não faz sentido que de uma barra de chocolate, só 7% do preço dela é do produtor", diz Lessa, apontando a necessidade de maior participação do agricultor na cadeia.
Desafios climáticos e risco de retorno ao luxo
Elis Joinville, da Cacau Brasil, alerta que o aumento das temperaturas já afeta cultivares centenárias e eleva os preços. "Com a mudança climática e o aumento das temperaturas, as culturas de cacau podem ser realmente afetadas. O preço já está subindo", afirma.
Ela indica que, se as condições se deteriorarem, o chocolate pode voltar a ser um produto de luxo, como era até meados do século XX.
Recepção internacional
Visitantes do salão elogiaram o chocolate brasileiro. Nathalie, entrevistada pela RFI, descreve: "É excelente. Gostei dos diferentes chocolates, especialmente o de 70%. É suave, encorpado, com notas que remetem à floresta. Dá para sentir todo o amor dedicado a essa produção".
A produção agroflorestal surge como caminho promissor, segundo a mesma entrevistada, que vê na agrofloresta a solução ideal para garantir qualidade e sustentabilidade.
Do coração da Amazônia e da Mata Atlântica às vitrines europeias, o cacau brasileiro aposta na qualidade, na preservação ambiental e na origem para conquistar consumidores globais.