Cortes ou estagnação nos benefícios sociais e previdenciários podem gerar retração severa na atividade econômica de municípios do interior, aponta levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA‑USP, divulgado nesta semana.

"Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa", afirmou Luiza Nassif, co‑diretora do Made.

Destaques:

  • Até 10,8% de queda na renda agregada sem reajustes
  • Benefícios sociais representam até 40% da renda nas cidades do interior
  • 2,7 milhões de pessoas podem cair na pobreza entre 2022 e 2025

Peso dos benefícios nas cidades do interior

O estudo analisou 5.569 municípios, dos quais cerca de 4 mil estão fora de regiões metropolitanas. Nesses locais, as transferências públicas chegam a ser o dobro da participação observada nos grandes centros. No Ceará, por exemplo, os benefícios respondem por 22% da renda da capital e região metropolitana, enquanto nas cidades do interior esse número chega a 40%.

Projeções para 2022‑2025

Com base nos anos de 2022 a 2025, o levantamento comparou dois cenários: continuidade dos reajustes reais de BPC e aposentadorias versus manutenção dos índices de 2019‑2022, sem ganhos reais do salário‑mínimo. Sem os reajustes, a renda agregada do interior cairia entre 6,8% e 10,8%.

"Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público", avaliou Nassif.

Impactos regionais e risco de pobreza

Os efeitos mais críticos seriam sentidos no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, com queda de 17% a 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco perderiam cerca de 15%; Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, entre 10% e 13%; e estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro teriam redução de 6,5%.

Para famílias com renda per capita de até 1,5 salário mínimo, os benefícios podem representar 50% do rendimento. A ausência de ganhos reais entre 2022 e 2025 poderia empurrar 2,7 milhões de pessoas à pobreza nos municípios fora das áreas metropolitanas, 2,4 milhões delas à extrema pobreza.

As maiores elevações no número de pobres seriam na Bahia (336 mil), São Paulo (263 mil) e Minas Gerais (251 mil), seguidas por Maranhão, Pará e Ceará, com mais de 200 mil pessoas adicionais em cada estado.

"Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo", concluiu Nassif.