Na escola municipal Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, o campo de futebol ficou exclusivo para garotas na tarde da última quarta‑feira (21). Quatro equipes disputaram um minitorneio sob a presença de ex‑jogadoras da seleção brasileira, enquanto os meninos assistiam apenas das arquibancadas.

Destaques:

  • Minitorneio feminino com quatro times
  • Ex‑jogadoras Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins participaram
  • Projeto segue preparando a cidade para a Copa do Mundo feminina de 2027

Antes da partida, mais de 100 alunas lotaram o auditório para ouvir histórias, fazer perguntas e tirar fotos com as ex‑atletas Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins – conhecidas como Caju, Fia e Pelezinha. Elas relataram as dificuldades enfrentadas, como o machismo e o preconceito, que marcaram a época em que o futebol era proibido às mulheres.

Rio de Janeiro (RJ), 21/10/2026 – Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol Marisa, Fia e Pelé participam de atividades com alunas da rede pública de ensino na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch, com o projeto Pioneiras nas Escolas.
Rio de Janeiro (RJ), 21/10/2026 – Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol Marisa, Fia e Pelé participam de atividades com alunas da rede pública de ensino na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch, com o projeto Pioneiras nas Escolas. — Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

De 1941 a 1979, o Decreto‑Lei 3.199 impediu a participação feminina em esportes considerados incompatíveis com sua natureza. A proibição surpreendeu a estudante Nicoly Melo, de 12 anos, que perguntou: “Por que não podiam?”. O esporte foi liberado em 1979 e regulamentado em 1983; a primeira seleção brasileira disputou uma competição experimental na China em 1988, seguida da primeira Copa do Mundo feminina em 1991 e da estreia olímpica em 1996, em Atlanta.

Fia, hoje com 62 anos, contou que enfrentou muito machismo, mas confiou na própria habilidade. > “Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo”, relatou às alunas a ex‑atleta.

Rio de Janeiro (RJ), 21/10/2026 – Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol Marisa, Fia e Pelé participam de atividades com alunas da rede pública de ensino na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch, com o projeto Pioneiras nas Escolas.
Rio de Janeiro (RJ), 21/10/2026 – Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol Marisa, Fia e Pelé participam de atividades com alunas da rede pública de ensino na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch, com o projeto Pioneiras nas Escolas. — Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A ex‑zagueira Caju, de 60 anos, integrou a seleção de 1988 a 1999, acumulando 43 jogos e 34 vitórias. Ela lembrou provocações machistas em campo: “Vários torcedores diziam que mulher não servia para jogar futebol”. > “Aquelas palavras mexiam com nosso ego, e a gente queria, mais e mais, mostrar que mulher sabe jogar futebol”, completou a atual árbitra.

O programa Pioneiras nas Escolas é coordenado pela ex‑jogadora Duda Luizelli, bicampeã sul‑americana que também atuou no Internacional, Milan e Verona. Ela enfatiza a importância dos estudos para atletas, cuja carreira costuma ser curta.

“O estudo é muito importante porque, mesmo quem for ser atleta, jogadora de futebol, de vôlei, de basquete, terá uma carreira muito curta. Com 38, 39 anos, acabou a nossa carreira e nós temos que dar uma continuidade”, disse a bicampeã.

Rio de Janeiro (RJ), 21/10/2026 – Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol Marisa, Fia e Pelé participam de atividades com alunas da rede pública de ensino na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch, com o projeto Pioneiras nas Escolas.
Rio de Janeiro (RJ), 21/10/2026 – Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol Marisa, Fia e Pelé participam de atividades com alunas da rede pública de ensino na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch, com o projeto Pioneiras nas Escolas. — Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio, parceira do projeto, classifica a escola como Ginásio Experimental Olímpico (GEO) desde 2012, oferecendo ensino integral e incentivo a 19 modalidades esportivas para cerca de 600 estudantes de 11 a 15 anos. O projeto, iniciado na preparação da Rio 2016, é considerado um legado olímpico; o Rio conta atualmente com 12 GEOs.

Caroline Guedes, coordenadora de Projetos Integradores da SME, relaciona o programa à preparação da cidade para ser uma das oito sedes da Copa do Mundo feminina de 2027.

“É muito importante que a gente já esteja se preparando para esse momento e, mais do que isso, se preparando dentro do nosso primeiro ginásio olímpico, que é muito importante para nossa rede”.

Aluna do 9º ano, Letícia Pereira, de 15 anos, descreveu a visita como “um privilégio” e acredita que a experiência mostra que “o esporte também dá futuro”. Ela garantiu presença nos jogos da Copa no próximo ano: “Meu pai me leva lá, eu fico lá torcendo”.