Em meio à saturação dos aplicativos de relacionamento, usuários do LinkedIn passaram a arriscar flertes e até buscar relacionamentos amorosos na rede voltada ao mercado de trabalho. A pesquisa da Zety, intitulada "Relatório de Romance do LinkedIn", entrevistou mais de 1 mil trabalhadores dos Estados Unidos e revelou que 74% consideram a prática um excesso de limites profissionais, enquanto cerca de um em cada quatro acha aceitável.

Relatos de quem já flertou na plataforma

João*, que prefere não ser identificado, conheceu o ex‑namorado após receber uma solicitação de conexão acompanhada de mensagem. Inicialmente a conversa era estritamente profissional, mas ele se sentiu atraído ao ver a foto do rapaz. "Era uma abordagem corajosa, mas, ao mesmo tempo, discreta. Poderia facilmente ter passado por uma conversa profissional, mas havia sempre alguma coisa nas entrelinhas", afirmou João.

A interação migrou para o Instagram e, duas semanas depois, eles marcaram um encontro e começaram a namorar. João atribui o sucesso à mesma área de atuação e aos interesses em comum.

Abordagens indesejadas e relatos de desconforto

Patrícia Gazolla, analista de recursos humanos, recebeu mensagens diretas sobre sua aparência, sem nenhum contexto profissional. "Eu me senti desrespeitada. Foi um baque, porque nunca tinha recebido uma mensagem desse tipo no LinkedIn", declarou. Ela respondeu criticando a abordagem, indicando que o homem deveria focar na busca de emprego.

Prints mostram homens paquerando mulheres pelo LinkedIn
Prints mostram homens paquerando mulheres pelo LinkedIn — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Julia Meireles, estagiária de marketing, também relatou uma experiência em que a conversa começou como networking e acabou se tornando um flerte fora de contexto. "Eu achei extremamente bizarro. Você está no LinkedIn, uma rede em que espera receber contatos profissionais... e acaba recebendo um flerte completamente fora de contexto", contou.

Posicionamento do LinkedIn e riscos profissionais

Em nota, o LinkedIn reforçou que a plataforma é comunitária e profissional, e que investidas românticas e assédio violam suas políticas. A empresa mantém equipes e tecnologias para remover conteúdos prejudiciais e orienta denúncias.

Especialistas apontam que a credibilidade dos perfis no LinkedIn, com formação, histórico profissional e conexões em comum, atrai usuários cansados de aplicativos de relacionamento. João Finamor, professor de Marketing da PUC‑RS, afirma que a rede oferece confiança baseada em dados verificáveis.

Priscila Milk, da ESPM, destaca que o status profissional pode gerar admiração, mas alerta para o desconforto quando não há abertura para a aproximação. "Daqui a pouco você está dando em cima de alguém que você gostaria e, depois, vai a uma entrevista de emprego e essa pessoa está te entrevistando. Como é que vai ficar isso?", questiona.

Denise Rendtorff, diretora‑geral da Talenses Human Capital, alerta que flertar no LinkedIn pode prejudicar a carreira, pois a abordagem fica associada ao crachá profissional. Ela recomenda não responder, remover a conexão ou denunciar em caso de insistência.

Conclusão

A pesquisa indica que, embora a maioria veja a paquera no LinkedIn como inadequada, uma parcela significativa aceita a prática. O debate evidencia a necessidade de inteligência de contexto e de políticas claras para proteger usuários de abordagens indesejadas em ambientes profissionais.