Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito em outubro com 64 milhões de votos, o maior número absoluto da história das eleições presidenciais brasileiras. Apesar da vitória, a oposição ganhou força no Congresso, o que tornará a governabilidade dependente de acordos constantes.
A discussão sobre os desafios de governar foi tema central no Seminário Brasil 2027 – Desafios do Novo Ciclo, promovido pela Fundação Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro. Especialistas analisaram o cenário pós‑eleitoral e apontaram a necessidade de alianças amplas.
Obstáculos parlamentares
O avanço de representantes ligados ao ex‑presidente Jair Bolsonaro (PL), somado a partidos como Progressistas (PP) e Republicanos, garante à direita mais da metade das cadeiras no Congresso, segundo o professor Lúcio Rennó, do Instituto de Ciência Política da UnB.
"Temos uma ideia de um presidente como líder de governo que ganha um mandato direto do país para implementar políticas públicas e funcionou assim por décadas, mas, nos últimos 15 anos, mais ou menos, uma série de reformas desequilibraram a balança em prol do legislativo e em detrimento do executivo", analisou o professor.
Resistência da direita
O cientista político Cláudio Couto, da FGV, descreve a oposição como "direita anti‑Estado Democrático" e destaca a lógica de sabotagem contra a agenda do Executivo.
"É uma direita que não reconhece a legitimidade do adversário e deve operar em lógica de sabotagem".
Couto cita a resistência à reforma tributária proposta pelo governo, impulsionada por parlamentares como o senador Ciro Nogueira (PP).
Papel do centrão e das lideranças legislativas
Partidos de centro, agrupados sob a denominação de "centrão", serão decisivos para formar maioria, sobretudo na Câmara dos Deputados. A primeira prova será a eleição das presidências da Câmara e do Senado em fevereiro, que definirá quem controla a agenda legislativa, nomeações ao STF e a distribuição de verbas de emendas.
"Quem manda no país hoje são dois atores chave: o presidente da Câmara e o do Senado, eles definem a agenda legislativa, controlam a possibilidade de impeachment e inúmeras nomeações, como para ministros do Supremo Tribunal Federal, além da alocação de verbas de emendas parlamentares", lembrou o professor Rennó.
Estratégias de negociação
Especialistas apontam a necessidade de melhorar a coordenação política dentro do Executivo, integrando indicados pelos partidos ao governo para apoiar a agenda no Congresso. A Casa Civil será crucial para mediar essas relações.
"O Congresso vai querer mexer em tudo. E o que for aprovado daqui para frente será uma agenda que refletirá interesses do Executivo e de sua base no Congresso", analisou Couto.
Mobilização social como aliado
A professora Talita Tanscheit, da PUC‑Rio, enfatiza a importância de manter vínculos permanentes com movimentos progressistas e ampliar a participação social por meio de conselhos e conferências.
"O segundo turno trouxe de volta à cena um ator que não estava presente desde a pandemia de covid‑19: a sociedade civil e os movimentos sociais", diz.
Perspectivas de reformas
A direita pode pressionar por propostas como a redução da maioridade penal para 16 anos e reformas no Judiciário, incluindo a retirada de atribuições da Justiça Penal do STF. Rennó observa que a vitória do PL no Senado reflete insatisfação popular com o STF, reacendendo debates sobre impeachment e reformas profundas.
"Então, com a sua legitimidade abalada, não só a discussão do impeachment volta à tona, mas a de reformas profundas", concluiu Rennó.