Um funcionário inspeciona um sapato na linha de produção da fabricante brasileira Kissol, enquanto novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros, inclusive calçados, entram em vigor. Os EUA são o principal mercado externo da indústria calçadista.
Destaques:
- Tarifas aumentam 2,9 pontos percentuais a inflação nos EUA até feb/2026
- Sobretaxas de 12,5% a 25% sobre exportações brasileiras
- Possível perda de 5 mil empregos diretos no setor calçadista
Impacto das tarifas nos EUA
As tarifas, apresentadas pelo governo Trump como proteção à indústria americana, elevaram a inflação dos produtos consumidos nos EUA em 2,9 pp até fevereiro de 2026, segundo estudo do Federal Reserve de Nova York. Uma tarifa global de 10 % sobre todas as importações poderia elevar os preços ao consumidor em 2,6 % em um ano.
Repercussão no Brasil
As medidas anunciadas em julho impuseram sobretaxas de 12,5 % a 25 % a diferentes grupos de produtos. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indica que essas medidas afetam 23,1 % das exportações brasileiras para os EUA, com 16,5 % sujeitas à sobretaxa acumulada de 37,5 %.
Setor calçadista em alerta
O segmento está entre os mais vulneráveis. Entre janeiro e agosto, as exportações brasileiras de calçados totalizaram 62,45 milhões de pares, gerando US$ 541,45 milhões, queda de 7,5 % no volume e 16,8 % na receita em relação ao mesmo período de 2025.
“As empresas poderiam direcionar parte da produção para o mercado nacional para evitar demissões. Mas, com o avanço das importações, fica mais difícil absorver esses produtos e manter os postos de trabalho.”
A Abicalçados estima perda de mais de 5 mil empregos diretos no segundo semestre caso as tarifas permaneçam. Até julho, o setor ainda apresentava saldo positivo de 1.740 postos no ano, mas registrou ‑387 vagas apenas em agosto.

Caso Rafarillo: adaptação nas fábricas
A fabricante francana Rafarillo, com cerca de 150 funcionários, precisou renegociar contratos com compradores americanos e reorganizar linhas de produção. André Ferreira, da área de comércio exterior, descreve as mudanças:
“O processo produtivo teve que ser repensado, nós tivemos que fazer algumas adequações, de repente até algumas mudanças em relação à matéria‑prima, obviamente não mudando a qualidade do produto, mas buscando mais alternativas no mercado”, afirmou.
A empresa reduziu postos e busca novos mercados na América Latina, Europa, África e Ásia.

Setores de açúcar, etanol e máquinas
No setor sucroenergético, o açúcar enfrenta sobretaxa de 25 %, enquanto o etanol está no centro de disputas comerciais. A Unica afirma que a política brasileira segue as regras da OMC e contesta exigências americanas.
A indústria de máquinas e equipamentos registrou queda de 13,6 % no faturamento no primeiro semestre, com vendas internas recuando 17 %, embora exportações tenham crescido 12,7 %. José Velloso, da Abimaq, aponta que a fraqueza do mercado interno tem impacto maior que as tarifas.
“Nós temos uma crise muito importante aqui dentro. Nós temos um aumento das exportações, e isso ameniza, mas temos uma queda das exportações para os Estados Unidos”, afirmou.