Antes de falar de peixe, o cacique Kara'í Perú e a pajé Keretxu Emdey, de 86 anos, da Aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz (ES), realizam orações no rio Piraquê-Açu. O canto em guarani pede proteção para os rios, o mar e os peixes, reforçando a dependência da comunidade das águas.
"O rio, para nós, é uma vida. É de onde a gente 'tira peixe, tira outras coisa' do rio pra poder alimentar nossa família. Deus criou o rio e a gente tem que cuidar dele", afirmou o cacique.
Declínio do rio e adaptação da comunidade
Perú relata que, há mais de dez anos, não pesca mais no rio, que considera "morto". Ele associa a degradação ao desastre de Mariana (2015), embora reconheça a necessidade de estudos ambientais para confirmar a relação causal. Diante da contaminação, a aldeia passou a criar peixes em tanques como alternativa.
Desafios e estratégias do setor pesqueiro
Rafael Viola, do Sindipesca-ES, destaca que a pesca é um saber transmitido por gerações, mas que o setor está fragmentado. O sindicato busca organizar a cadeia, aproximando pescadores, armadores, distribuidores e fábricas de gelo.
"O pescador conhece a lua, o vento, o comportamento dos animais, os lugares onde eles aparecem e o momento certo de sair para o mar. É um saber construído ao longo de gerações. A pesca é uma cultura que está viva na mente do pescador. Por isso, quando ele morre, acaba", disse Viola.
Projetos como Pesca Mais ES e a Semana do Pescado visam fortalecer a cadeia. A semana movimenta cerca de 200 toneladas de pescado, gerando R$ 7,5 milhões em vendas.
Jovens e inovação na pesca
Ianca de Oliveira Silva Lima, estudante de Engenharia de Pesca (IFES) e proprietária de peixaria, representa a nova geração que combina tradição e conhecimento técnico. Ela relata as dificuldades financeiras da atividade e a falta de previsibilidade que desestimula jovens.
"A pesca é sofrida, é uma atividade bonita para quem vê, mas na prática é sofrida", afirmou.
Ianca pretende, após a formatura, ampliar sua peixaria e oferecer apoio técnico à comunidade, facilitando acesso a informações sobre direitos e licenças.
Piscicultura como fonte de renda
Em Domingos Martins, a família Sassemburg Pereira cultiva tilápias em tanques. Atualmente, dois dos oito tanques são produtivos, gerando cerca de 20 toneladas por ano, com potencial para dobrar a produção.
"Saí, estudei e agora a gente consegue aprimorar as demandas da nossa produção, fazer com que seja mais produtivo e lucrativo", explicou Frederico Sassemburg Pereira.
A piscicultura complementa a renda familiar e demonstra como o conhecimento técnico pode transformar práticas tradicionais.
Perspectivas para o futuro
A tradição do pescado, que liga rio, mar e tanques, sustenta famílias, movimenta cadeias produtivas e impulsiona a economia do Espírito Santo. Iniciativas de organização setorial e a inserção de jovens profissionais apontam caminhos para preservar a cultura ao mesmo tempo em que se buscam soluções sustentáveis diante dos desafios ambientais.