Presidente do BNDES em 1998 e ex‑diretor do Banco Central, André Lara Resende tornou‑se centro da discussão sobre a política fiscal e monetária do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista à BBC News Brasil, ele negou ter contato com o presidente e acusou a divulgação de seu texto de tentativa de prejudicar quem o defendeu.
"Não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado [para apresentar a ideia a ele]. Essa notícia foi plantada obviamente para queimar a proposta ou [prejudicar] alguém que não eu, porque todo mundo sabe que eu não quero ir para o governo — incluindo o próprio Lula", afirmou.
Destaques:
- Economista nega encontro com Lula e acusa “plantação” de notícia
- Propõe criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN)
- Selic mantida em 13,75% ao ano pelo Copom
Proposta de Conselho Fiscal e Monetário Nacional
Lara Resende explicou que o CFMN seria um órgão ao lado do Banco Central, responsável por coordenar expectativas sobre juros e política fiscal. O plano prevê que o BC anunciaria a redução gradual da taxa básica ao longo de cerca de 12 meses, chegando a cerca de 7,5% ao ano.
"Para dar início ao novo regime fiscal e monetário, o BC anunciaria a redução gradual do juro básico, ao longo de cerca de 12 meses, para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%", disse.
Ele ressalta que o déficit fiscal de 0,48% do PIB em 2025 decorre mais do serviço da dívida — os juros pagos — do que dos gastos públicos.
Reação do mercado e do setor financeiro
Após a deputada Gleisi Hoffmann compartilhar o artigo em 28/10, o mercado passou a especular sobre um possível encontro entre Lara Resende e Lula e sobre a implementação da proposta. Segmentos do setor financeiro e da oposição acusam o plano de tentar reduzir juros à força, comprometendo a autonomia do Banco Central.
"Eu tenho uma longa tradição de ser contra tabelamentos de qualquer tipo", respondeu o economista.
Contexto da taxa Selic
A taxa básica de juros, definida pelo Copom, foi mantida em 13,75% ao ano nesta semana, interrompendo o ciclo de cortes iniciado no primeiro semestre, quando estava em 15%.
Lara Resende argumenta que a alta da Selic, atualmente mais do que o dobro da segunda taxa real mais alta do mundo, é o principal fator que eleva o custo da dívida pública, que representa cerca de 80% do PIB.
"Não significa subscrever que o país não tem problemas com gastos [públicos] e com tributação, mas não são eles que estão criando o problema do déficit fiscal brasileiro", completou.
Próximos passos
Para que a proposta avance, será necessário aprovação no Congresso Nacional, já que o Banco Central não tem autonomia para criar conselhos próprios, apenas comitês consultivos. O debate sobre a viabilidade do CFMN e o impacto da redução da Selic deve se intensificar nas próximas semanas.