Quando a China reduz a compra de soja, o Brasil sente o impacto nas exportações e na renda rural. Especialistas consultados pelo G1 apontam três fatores que podem limitar a demanda chinesa: o retorno das compras de soja dos Estados Unidos, a estratégia chinesa de reduzir importações e a projeção de diminuição da população chinesa.

"Uma contração da demanda chinesa traz o risco de quedas simultâneas nos preços e nas receitas de exportação", afirmou a consultoria Systemiq.

Destaques:

  • Redução da demanda chinesa pode baixar preços e receitas
  • China mantém acordo de compra de 25 milhões de toneladas de soja dos EUA (2026‑2028)
  • Projeção de queda de 25% nas importações chinesas de soja até 2030

Acordo China‑EUA aumenta a concorrência

A China comprometeu‑se a comprar 25 milhões de toneladas de soja americana anualmente entre 2026 e 2028, além de adquirir US$ 17 bilhões em produtos agrícolas dos EUA. O acordo, anunciado em maio após visita de Trump a Pequim, visa compensar a queda de exportações chinesas de soja americana, que recuaram 50% em um ano e provocaram queda de 40% nos preços.

"[Manter] essa tarifa acaba também sendo uma sinalização de cautela, de que a relação está estável, mas que ela não está totalmente normalizada", afirma Larissa Wachholz.

A tarifa de 13% sobre a soja dos EUA, comparada à taxa de 3% sobre a soja brasileira, favorece a competitividade do Brasil no curto prazo, segundo Patrícia Ellen, da Systemiq.

Histórico de participação brasileira

Desde 2017, o Brasil consolidou‑se como principal fornecedor de soja da China. Em 2016, os EUA representavam 41% das importações chinesas de soja, enquanto o Brasil respondia por 45%. A disputa comercial iniciada com o governo Trump elevou a participação brasileira, gerando perdas de US$ 27 bilhões para os agricultores norte‑americanos.

"Os Estados Unidos tiveram maior dificuldade nas negociações, o que fez com que os prêmios pela soja brasileira fossem maiores", afirmou Lucas Costa Beber, da Aprosoja‑MT.

Riscos de ampliação das compras americanas

Wachholz alerta que, se a China ultrapassar o volume de 25 milhões de toneladas de soja dos EUA, a cadeia produtiva brasileira pode ser prejudicada, já que foi estruturada para atender ao mercado chinês.

"Aí sim poderia nos prejudicar, porque toda a nossa cadeia foi construída para atender aquele mercado", disse.

Projeções de queda da demanda chinesa

O Plano Quinquenal da China busca reduzir a dependência de importações, aumentando a produção interna de alimentos, inclusive soja. A Systemiq estima que as importações chinesas de soja podem cair 25% até 2030, reduzindo o consumo de farelo de soja de 14,5% para menos de 10%. Essa diminuição equivaleria a 23,5 milhões de toneladas, quase todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras.

"Basicamente, esses 23,5 milhões de toneladas de redução projetada equivalem a praticamente todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras destinadas ao país naquele ano", afirmou Ellen.

Estratégias para o setor brasileiro

Especialistas recomendam que o Brasil evite expandir a área plantada de soja e invista no processamento do grão para agregar valor. Alternativas incluem o desenvolvimento de biocombustíveis e o acompanhamento anual das inovações chinesas em proteínas sintéticas e uso de sorgo na alimentação animal, que já compete com o farelo de soja.

"O Brasil precisaria acompanhar se o nível de produtividade da soja vai aumentar ou não. Se passar a usar o transgênico, ela consegue ter algum ganho de produtividade", disse Wachholz.

A manutenção da competitividade brasileira dependerá da capacidade de adaptação às mudanças na demanda chinesa e da diversificação dos mercados de exportação.