Não há "atalhos" para equilibrar as contas públicas e cortar os juros no Brasil, afirma Tiago Cavalcanti, professor titular da Universidade de Cambridge. Ele alerta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa anunciar rapidamente medidas críveis para um ajuste fiscal gradual nos próximos anos, sob risco de desancorar as expectativas do mercado.
Destaques:
- Economista pede ajuste fiscal suave
- Lula deve anunciar nova equipe econômica
- Próximos passos: anúncio de ministros e diretores do Banco Central
Proposta de ajuste fiscal gradual
Cavalcanti sugere que o governo priorize a anúncio da nova equipe econômica com nomes comprometidos com o equilíbrio das contas. Ele defende que o ajuste seja feito ao longo dos anos, sem cortes abruptos.
"Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar [de uma vez], vamos suavizar isso ao longo dos anos", afirmou Tiago Cavalcanti.
Reajuste do salário mínimo
Para o economista, o controle dos gastos não impede a manutenção de programas sociais, mas a regra que garante reajuste do salário mínimo acima da inflação precisa ser revista. Enquanto as contas não estiverem equilibradas, o governo deveria limitar o reajuste à inflação.
"Eu acho que recuperar o poder de compra [reajustando o salário mínimo pela inflação] é possível. Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de compra, dar aumentos acima da inflação, ... já acho que começa a não ser mais compatível [com o ajuste fiscal]", disse.

Debate sobre a taxa Selic
Cavalcanti critica a proposta de redução rápida da taxa básica de juros (Selic) apresentada por André Lara Resende, que pretende levar a Selic a 7,5% ao ano em 12 meses. O economista aponta que a experiência da Turquia sob pressão política resultou em hiperinflação, reforçando a dificuldade de encontrar evidência empírica que sustente a medida.
"Houve países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia, onde teve muita pressão do [presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo", afirmou Cavalcanti.
Estratégia política e institucional
Cavalcanti recomenda que o governo anuncie diretoria do Ministério da Fazenda e nomes para as vagas restantes no Banco Central. Ele destaca a importância de escolhas políticas que conciliem metas fiscais ambiciosas com um ajuste mais suave, garantindo a sustentabilidade da dívida pública.
"É preciso haver coisas práticas agora, não tem como fugir. Uma estratégia é você primeiro anunciar o Ministério da Fazenda, juntamente com economistas que vão fazer parte desse ministério", disse.
O economista conclui que, sem um plano sólido, o governo pode buscar atalhos que aumentem a volatilidade do mercado, provocando fuga de capitais e pressão sobre o câmbio, a inflação e os juros de longo prazo.