Democratas garantem maioria nas duas casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas na terça‑feira (3). A vitória, conhecida como "onda azul", dá ao partido controle da pauta legislativa e das comissões de fiscalização, reduzindo a margem de manobra do presidente Donald Trump.
"Um enfraquecimento do Partido Republicano reduziria o poder do presidente para aprovar determinadas medidas e ampliaria a fiscalização sobre o governo.", afirmou Andressa Durão, economista do ASA.
Destaques:
- Democratas obtêm 228 cadeiras na Câmara e 54 no Senado
- Controle da agenda legislativa e das comissões de fiscalização
- Possível impacto nos juros e no dólar frente ao real
Controle democrático e limites à agenda de Trump
Com a maioria na Câmara dos Representantes (228 cadeiras) e no Senado (54 cadeiras), os democratas podem bloquear propostas de gastos públicos, impostos e regulação. O presidente ainda conserva o veto, mas a derrubada exigirá apoio de dois terços dos parlamentares em cada casa.
Repercussões nos mercados financeiros
Especialistas apontam que a mudança pode alterar as expectativas sobre os títulos do Tesouro dos EUA e, consequentemente, influenciar a taxa de juros global. Se os investidores perceberem maior risco de aumento de gastos nos EUA, os rendimentos dos títulos podem subir, tornando-os mais atrativos e provocando saída de capitais de mercados emergentes, como o Brasil.
"O mercado financeiro ainda não considerou plenamente a possibilidade de os democratas conquistarem o controle das duas Casas do Congresso. Se isso acontecer, o impasse entre o governo e o Legislativo e o avanço de pautas de confronto, como discussões sobre um possível impeachment, devem aumentar a volatilidade nos mercados globais", afirmou Gustavo Sung, economista‑chefe da Suno Research.
Impacto sobre o real e a taxa Selic
Segundo Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, a vitória democrata pode limitar novas propostas de aumento de gastos nos EUA, reduzindo a pressão sobre os juros americanos. Isso poderia tornar os mercados emergentes mais atrativos, favorecendo a entrada de recursos no Brasil, fortalecendo o real e aliviando a pressão sobre a Selic.
"Isso tende a pressionar o dólar para cima frente ao real, elevar os juros futuros brasileiros e dificultar o desempenho da bolsa — especialmente de empresas mais endividadas e de setores sensíveis ao crédito, como varejo e construção.", disse Praça.
Relações comerciais EUA‑Brasil sob nova dinâmica
A maioria democrata também pode dificultar a adoção de novas tarifas comerciais por parte de Trump, embora o presidente ainda possa recorrer a dispositivos como as Seções 232 e 301 da legislação americana. A decisão da Suprema Corte dos EUA, em 20 de fevereiro, que derrubou tarifas baseadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), demonstra a complexidade do cenário.
"Na bolsa, seria desigual: exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais alto, mas perder se houver queda das commodities ou da demanda mundial", comentou Praça.
Com a nova configuração do Congresso, investidores monitorarão de perto as negociações sobre orçamento, políticas fiscais e possíveis atritos comerciais entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva.