Empresas de tecnologia intensificam o diálogo com líderes religiosos para buscar princípios morais que possam guiar o treinamento de sistemas de inteligência artificial. A iniciativa ganhou destaque quando Chris Olah, cofundador da Anthropic, apresentou a encíclica do Papa Leão XIV sobre IA no Vaticano, no início do ano.
"Essas não são perguntas que um laboratório possa responder", disse Olah, referindo‑se a dilemas éticos que a IA levanta.
Destaques:
- Empresas como Anthropic e OpenAI consultam religiosos para definir ética da IA
- Chris Olah apresentou encíclica papal no Vaticano
- Próximas reuniões incluirão mais de 15 grupos religiosos
Empresas buscam fundamentos morais na religião
A proposta parte da ideia de que a religião pode oferecer um conjunto de valores universais para orientar algoritmos. Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou que o ChatGPT deveria refletir "uma média ponderada da visão moral da humanidade".
Especialistas alertam que tradições distintas podem entrar em conflito, dificultando a criação de um código ético único. O antropólogo Webb Keane, da Universidade de Michigan, critica a visão simplista de religião como "livro de regras".
Reuniões com líderes religiosos
A Anthropic divulgou, em maio, que reuniu "acadêmicos, clérigos, filósofos e especialistas em ética de mais de 15 grupos religiosos e interculturais". Meghan Sullivan, filósofa da religião da Universidade de Notre Dame, descreveu o ambiente interno da empresa como "semelhante a um bom campus universitário".
"A cultura dentro da empresa é semelhante à de um bom campus universitário, no sentido de que há um grupo de pessoas muito curiosas intelectualmente", afirmou Sullivan.
As discussões abordaram temas como "Será que os humanos têm alma?" e "Alunos do terceiro ano deveriam ter acesso a um chatbot para ajudar na alfabetização?".
Críticas ao modelo de integração
Especialistas como Paolo Carozza, membro do Conselho de Supervisão da Meta, temem que a mistura de perspectivas possa diluir características específicas de cada tradição, gerando uma visão genérica que privilegia religiões ocidentais.
"O que a IA, acredito, muitas vezes faz — ou pode fazer — não ocorre de forma orgânica. Ela simplesmente mistura tudo, desorganiza tudo e, assim, acaba não dando sentido a nada.", disse Carozza.
Perspectivas futuras
A Anthropic afirma que o objetivo não é alinhar modelos a uma visão de mundo específica, mas inspirar o modelo Claude em uma ampla gama de pontos de vista, incluindo religiosos, seculares e políticos.
"Este trabalho não busca alinhar nossos modelos à visão de mundo de uma tradição específica. Queremos que Claude se inspire em uma ampla gama de pontos de vista — religiosos, seculares e políticos — com igual profundidade e rigor", declarou a empresa.
A iniciativa evidencia o esforço do setor de IA para incorporar diversidade de pensamento, embora continue a gerar debates sobre a eficácia e os riscos de usar a religião como base para a ética algorítmica.