O presidente Luiz Inácio Lula encerrou a campanha na Avenida Paulista, em São Paulo, pedindo que o Hino da Independência fosse executado. No dia seguinte, ao celebrar a vitória no segundo turno, reiterou o pedido, afirmando que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”.

A escolha do hino nos dois momentos

No sábado (24), Lula desfilou em trio elétrico ao lado da esposa Janja e de aliados como Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. O evento, descrito como um dos maiores já realizados na avenida, ocupou 14 dos 18 quarteirões. Quando a música começou, parte do público pareceu hesitar, mas a reação mudou ao avançar o refrão.

"Brava gente brasileira, longe vá, temor servil. Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil", cantaram os manifestantes emocionados.

Reforço da mensagem de soberania

No domingo (25), durante o discurso de vitória, Lula pediu novamente a execução do hino. “Ontem eu fiquei emocionado, e eu quero pedir para outra vez tocar o Hino da Independência. Para eles saberem que nós não cabemos no quintal de ninguém”, afirmou.

A cientista política Tathiana Chicarino explicou que o hino conecta o discurso de Lula à ideia de autonomia nacional. Ela destacou que o refrão “é conhecido, contundente e direto”, dando enquadramento à discussão sobre soberania.

Disputa simbólica entre campos políticos

A escolha do hino ocorre em meio à disputa sobre o termo soberania. Lula associa o conceito à independência frente a pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) o relaciona à segurança pública. Chicarino observa que a extrema‑direita tem usado símbolos como a bandeira, o verde e amarelo e os hinos patrióticos como marcas de identificação desde 2013, intensificando a polarização afetiva.

"Isso tem a ver com essa intensificação de uma polarização afetiva, que não é uma polarização partidária apenas, ou política. Ela é afetiva: eu não vejo o outro e não chego perto do outro", disse.

Estratégia de retomada dos símbolos nacionais

Em 17 de outubro, o deputado André Janones (Rede‑MG) lançou a campanha nas redes sociais para que apoiadores usassem verde e amarelo e o gesto do “L”. A iniciativa busca romper a associação automática desses símbolos ao bolsonarismo, ampliando seu uso entre diferentes grupos.

A análise de Chicarino diferencia nacionalismo excludente, que delimita quem pertence à comunidade, de nacionalismo inclusivo, que reúne identidades diversas. Segundo a pesquisadora, o segundo modelo permite compartilhar referências nacionais sem apagar diferenças regionais.

"Mas a gente pode ter um nacionalismo mais inclusivo, que é diferente, é diverso, é regionalizado. Mas, ao mesmo tempo, a gente consegue perceber algo que nos une", concluiu.