Abertura
Publicações de políticos e influenciadores digitais, surgidas após a eleição presidencial de 2026, pedem a demissão de funcionários petistas e o boicote a estabelecimentos que apoiaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 2.177 denúncias de assédio eleitoral em 2026, das quais mais de 530 (24,3%) foram registradas depois do resultado.
Destaques:
- 2.177 denúncias de assédio eleitoral em 2026
- Publicações pedindo demissão de petistas
- MPT solicita R$ 500 mil de indenização contra deputada
Votos e retaliações nas redes sociais
A vereadora de Londrina, Jessica Ramos Moreno (PL), escreveu:
"Você tem uma empregada que é petista? Demita! Tem um funcionário que é petista? Demita!", afirmou.
A influenciadora Josiflora, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, publicou:
"Não ajude petista: na fila da regulação, em pedido de emprego, em nenhum tipo de favor".
Em vídeo, o empresário e influenciador Rapha Hanzol declarou que demitiu sua melhor funcionária por não se adequar à "cultura" da empresa.
"Hoje eu vou demitir a minha melhor funcionária. E essa será a decisão mais acertada do ano...", afirmou.
Reação de políticos e medidas judiciais
A deputada estadual do Rio de Janeiro Índia Armelau (PL) pediu que empresários não contratem quem "odeia empresários". O MPT‑RJ, na mesma terça‑feira (27), requereu R$ 500 mil de indenização contra a deputada por incentivar demissões motivadas por posicionamento político.

Outras influenciadoras, como Livian Weber Asmar e Natássia Chamelete, divulgaram listas de restaurantes e serviços a serem boicotados por consumidores conservadores, ampliando a pressão sobre profissionais vinculados ao PT.
Ação do Ministério Público do Trabalho
O procurador do Trabalho Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades, explicou que o MPT recebeu um volume significativo de denúncias após o pleito e que a lei proíbe qualquer discriminação baseada em orientação política.
"Nesses casos, o Ministério Público do Trabalho tem todo um regramento que impede esse tipo de discriminação do trabalhador pelo voto, pela opção política dele", afirmou.
Ele reforçou que a prática pode se estender ao pós‑voto, quando trabalhadores são ameaçados ou perseguidos por suas supostas posições.
"Há uma violação que não atinge somente o direito daqueles trabalhadores e trabalhadoras atingidos, mas atinge toda a democracia, toda a sociedade."
Um post do MPT, publicado na segunda‑feira (26), alertou:
"O voto é livre e secreto. Ninguém é obrigado a revelar em quem votou, e ninguém pode ser punido pela escolha que fez. Quem sofreu ou presenciou esse tipo de pressão pode denunciar pelo site do MPT, de forma remota e sigilosa."
Base legal e possíveis sanções
O órgão fundamenta suas ações na Lei nº 9.029/1995, que proíbe práticas discriminatórias na contratação e manutenção do emprego, além das garantias constitucionais de liberdade de consciência e da Convenção nº 111 da OIT. Advogada trabalhista Thaluana Aves alertou que a demissão por orientação política viola direitos fundamentais.
"É muito grave imaginar que uma pessoa possa perder o emprego ou deixar de conseguir uma oportunidade de trabalho simplesmente porque pensa politicamente de maneira diferente do empregador."
Se comprovada a demissão por motivação política, a Justiça do Trabalho pode determinar reintegração com salários retroativos ou indenização equivalente ao dobro da remuneração do período, além de danos morais.

Responsabilidade de terceiros
Igor Sousa Gonçalves afirmou que não apenas empregadores, mas também quem incentiva a demissão nas redes sociais pode ser responsabilizado.
"Os terceiros que utilizam as redes sociais para incentivar as empresas a demitir, a perseguir e retaliar os trabalhadores por suas escolhas políticas também podem ser responsabilizados."
O MPT continua analisando denúncias contra agentes políticos que promovam tais práticas, reforçando a necessidade de coibir a discriminação política no ambiente de trabalho.