As compras chinesas de produtos agrícolas dos Estados Unidos, excluindo a soja, avançam para o menor nível em sete anos. Entre janeiro e setembro, o valor total chegou a US$ 7,2 bilhões (R$ 39,03 bilhões), o menor registro desde 2019, ano de pico da primeira guerra comercial entre os dois países.

Compra de commodities fora da soja

A soja segue um acordo separado e a China parece estar no caminho para cumprir a meta desse grão. Para os demais produtos, ainda não há clareza se Pequim está descumprindo o acordo. A Casa Branca não informou se o prazo começou a contar após o anúncio de maio ou somente após a conclusão dos cortes de tarifas propostos pela China, que ainda não foram implementados.

Reação dos produtores americanos

O ritmo lento das compras aumenta as dúvidas sobre uma recuperação das importações ainda neste ano e frustra agricultores americanos, que também enfrentam custos elevados de combustíveis. A questão ganhou destaque político nas vésperas das eleições de meio de mandato desta terça‑feira (3), com democratas buscando eleitores de regiões agrícolas tradicionalmente republicanas.

"Nossos produtores são patriotas, mas há muitos silos cheios de grãos e, certamente, uma vontade de ver esse comércio acontecer", afirmou Tim Lust, diretor‑executivo da National Sorghum Producers. "A soja está sendo negociada, mas outras commodities não."

Desafios de demanda e concorrência

Analistas apontam que, mesmo com aumento nas compras, será difícil atingir a meta de US$ 17 bilhões diante de demanda fraca na China e concorrência de outros fornecedores. Para alcançar o valor previsto, Pequim provavelmente precisará mobilizar empresas estatais.

O milho ilustra a situação: em 2021, a China importou US$ 5,6 bilhões de milho americano, quase 20 milhões de toneladas. Em 2024, a corretora estatal COFCO Futures declarou que o milho dos EUA não está competitivo devido à abundante oferta doméstica, projetando importações de cerca de 900 mil toneladas para a safra 2026/27.

Sorgo e carnes em declínio

As exportações de sorgo dos EUA para a China caíram de 6,5 milhões de toneladas em 2021 (US$ 2,1 bilhões) para cerca de 3,7 milhões de toneladas até o fim de agosto deste ano, enquanto o Brasil já enviou 1,7 milhão de toneladas e planeja quase mais 1 milhão.

As carnes americanas enfrentam obstáculos semelhantes. A China dispõe de oferta abundante de carne suína e de frango, e a carne bovina dos EUA está mais cara por redução dos rebanhos. Apesar da renovação, em maio, de licenças de exportação de mais de 400 frigoríficos americanos, metade da capacidade de abate dos EUA permanece sem autorização chinesa, segundo a Federação de Exportação de Carnes dos EUA.

"Muito disso parece depender de até que ponto a China recorrerá às empresas estatais para fazer essas compras", disse Darin Friedrichs, cofundador da Sitonia Consulting. "É difícil chegar a US$ 17 bilhões em produtos que não sejam soja sem compras direcionadas e realizadas fora das condições normais de mercado."

Perspectivas para 2026

O Departamento de Agricultura dos EUA enviou ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) perguntas sobre o cálculo da meta proporcional para 2026. Até o momento, USTR, Casa Branca e Ministério do Comércio da China não responderam.

A combinação de demanda fraca, concorrência crescente e barreiras regulatórias indica que a China precisará de intervenções estatais para cumprir o compromisso de US$ 17 bilhões em compras agrícolas não‑soja nos próximos anos.