A conjuntura global que o próximo presidente do Brasil enfrentará será mais complexa
Especialistas em relações internacionais alertam que Otaviano Canuto, economista da Elliott School (GWU) e ex‑vice‑presidente do BID, prevê mudanças profundas na geopolítica a partir de 2025. O cenário inclui as eleições legislativas dos Estados Unidos em 3 de novembro, que podem gerar maioria democrata no Congresso, e pleitos presidenciais na França (abril‑maio 2027), Argentina (outubro) e Espanha (agosto).
"O presidente eleito pode esquecer qualquer ideia de ter relações lógicas com os outros países", afirmou Vinícius Mariano de Carvalho, do King's College.
Destaques:
- Possível maioria democrata nos midterms dos EUA em 3/11/2025
- Alinhamentos ideológicos diferentes para Lula (esquerda) e Flávio Bolsonaro (direita)
- Próximos passos: reconstruir relação com EUA, equilibrar competição EUA‑China, coordenar política sul‑americana
Impactos das eleições nos EUA e na Europa
A maioria democrata no Congresso americano pode aumentar as fricções com o presidente Donald Trump, cujo mandato vai até 2029. Na Europa, a saída de Emmanuel Macron em maio de 2027 pode retirar um aliado importante para Lula, enquanto a França e a Rússia permanecerão como atores relevantes.
Desafios específicos para Lula e Flávio Bolsonaro
Se Lula for reeleito, enfrentará uma “doutrina Donroe” mais bélica, com possíveis tarifas de importação e pressões sobre terras raras e minerais críticos. Canuto afirma que o presidente usará instrumentos de coerção para limitar investimentos chineses.
"Se ele usou alguns instrumentos de coerção com objetivos transacionais políticos, como as tarifas de importação, ele também vai usá‑los para acessar terras raras, minerais críticos e para tentar restringir os investimentos chineses na infraestrutura do Brasil", disse Canuto.
Em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, ele terá dois anos de proximidade com a administração trumpista e vizinhos latino‑americanos de direita, como José Antonio Kast (Chile) e Rodrigo Paz (Bolívia). O desafio será materializar a agenda esperada por Washington.
"Se o desafio de Lula seria reagir a Trump, o de Flávio seria como materializar a agenda, interna e regional, que a Casa Branca espera de um Brasil alinhado aos EUA", completou o economista.
Relação Brasil‑Estados Unidos sob Trump
Desde que Trump retornou ao poder em janeiro de 2024, elevou tarifas de importação para 35%, classificou facções criminosas brasileiras como “terroristas” e manteve postura ambígua sobre Lula. Recebeu Flávio Bolsonaro em Washington (maio) e concedeu visto permanente ao irmão Eduardo Bolsonaro.

Especialistas concordam que a relação com os EUA será decisiva para a política externa do próximo presidente, exigindo convicção de que o Brasil não é rival dos Estados Unidos, conforme destaca Feliciano de Sá Guimarães, do CEBRI.
"É um erro de leitura deles, porque não somos inimigos. Será mais um trabalho de convencimento", afirmou Sá Guimarães.
Perspectivas para a América do Sul
Além da relação com Washington, o futuro presidente terá que lidar com uma América do Sul fragmentada, buscando coordenar políticas econômicas e estratégicas em meio a tensões regionais e à competição entre China e Estados Unidos.