Ato de estudantes da UFF deu pontapé em mobilização por virada de Lula

O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento, dizia o cartaz que convocou o protesto para 5 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno das eleições. O evento, organizado pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e pela Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, reuniu centenas de pessoas em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, durante uma noite chuvosa.

"O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento", afirmou o cartaz.

Destaques:

  • Protesto de estudantes da UFF em Niterói mobiliza centenas
  • Reação à vitória de Flávio Bolsonaro (47% dos votos) sobre Luiz Inácio Lula (45%)
  • Mobilização se estende a outras cidades nas semanas seguintes

Contexto eleitoral e temores de corte

O protesto foi gestado na noite de domingo (4), após a divulgação dos resultados do primeiro turno, em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 47% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou com 45%. Os estudantes temiam que a proposta de Flávio de transferir as universidades do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência e Tecnologia reduzisse verbas.

"Ele tinha como proposta tirar as universidades do Ministério da Educação e passar para o de Ciência e Tecnologia, que tem menos verbas", explicou Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico de Direito.

Valentina ressaltou que a vitória de Flávio significaria cortes em infraestrutura, auxílio‑permanência e outras áreas, comparando ao governo de Jair Bolsonaro (2019‑2022).

Rio de Janeiro (RJ), 26/10/2026 - Mobilização de estudantes nas ruas. Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV) da UFF Niterói.
Rio de Janeiro (RJ), 26/10/2026 - Mobilização de estudantes nas ruas. Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV) da UFF Niterói. — Foto: CAEV UFF Niterói/Divulgação

Reação histórica e símbolos da resistência

Membros da atlética de direito lembraram a experiência de cortes durante o governo Bolsonaro, quando a UFF foi alvo de críticas do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, que chamou universitários de "idiotas úteis". Na época, o contingenciamento chegou a 30% das verbas, afetando bolsas e pesquisas.

"Nós vimos como o bolsonarismo atacou as universidades na gestão do Jair, como a universidade foi vilipendiada, como eles desprezam as instituições de ensino público. A gente sentia que estava arriscando a perder nossa faculdade, a nossa casa. A educação pública estava em risco", avaliou.

Expansão da mobilização

Na segunda‑feira, os estudantes decidiram tornar o ato interno, envolvendo alunos, professores e representantes da OAB, mas a participação cresceu para centenas. A bandeira do Direito Antifascista, criada em 2018, foi exibida.

"Para nós, do Direito, a situação era absurda, sobretudo, diante da postura dele contra direitos civis, contra a Constituição Federal e em defesa da ditadura", afirmou um jovem, lembrando o caso de Fernando Santa Cruz, desaparecido em 1974.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2026 – Os estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Simão Gabriel, João Paulo Pimenta e Valentina Cruz posam para
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2026 – Os estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Simão Gabriel, João Paulo Pimenta e Valentina Cruz posam para — fotografia na faculdade, no bairro do Ingá, em Niterói (RJ). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Outros cursos aderiram, citando ameaças à democracia e comparando a situação ao governo de Donald Trump. A manifestação atraiu até uma senhora idosa que, emocionada, disse que o futuro não poderia ser entregue à extrema‑direita.

"Ela estava lá, na chuva, conosco, e disse que o nosso futuro não podia ser entregue para a extrema‑direita", relatou Valentina Cruz.

Repercussão e continuidade

A mobilização de 5 de outubro ganhou força ao longo da semana. Em 7 de outubro, estudantes do Rio ocuparam o centro da cidade em nova passeata. Protestos semelhantes surgiram em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, e em outras capitais, reforçando a campanha pela reversão do resultado eleitoral.

"A eleição de vários representantes do fascismo, da extrema‑direita, me assustou", contou Isabela Casalini, aluna de desenho industrial da UFF.

A historiadora Carolina Barreto (Unirio) contextualizou a ação dentro da tradição de mobilizações estudantis brasileiras, que já haviam influenciado a criação da Petrobras e a queda de Collor.

"Na década de 1990, teve o Fora, Collor, e, em junho de 2013, os estudantes atuaram de novo, trazendo pautas como gentrificação e encarecimento da vida nas cidades", analisou.

Avaliação de lideranças

O advogado Felipe Santa Cruz, filho do militante desaparecido Fernando Santa Cruz, elogiou a iniciativa, destacando o papel dos estudantes na luta contra o autoritarismo.

"Os meninos e meninas da UFF se juntaram, foram às ruas espontaneamente, da forma mais bela, se indignaram com o risco que o país corria e tomaram a história nas próprias mãos", declarou.

Rio de Janeiro (RJ), 26/10/2026 - Mobilização de estudantes nas ruas. Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV) da UFF Niterói.
Rio de Janeiro (RJ), 26/10/2026 - Mobilização de estudantes nas ruas. Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV) da UFF Niterói. — Foto: CAEV UFF Niterói/Divulgação