Estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a Croplife Brasil, revelou que a soja pode perder 55% da produtividade sem manejo fitossanitário. O cenário projetado aponta redução de produção, elevação de preços e impactos na inflação.
Cenários de proteção e produtividade
A pesquisa simulou três situações: sem controle, controle parcial (até 40% de proteção) e controle ótimo (80%). Sem manejo, a produção cairia para 32 sacas/ha, enquanto o controle ótimo poderia alcançar 72 sacas/ha. O controle parcial resultaria em 52 sacas/ha, 28% abaixo do ótimo.
Impactos econômicos
Com perdas totais, seria necessária a expansão de 33,5 milhões de hectares de soja – quase o tamanho de Goiás – para compensar. O déficit equivaleria a 121,3 milhões de toneladas e a R$ 223,5 bilhões em valor de produção. No cenário ótimo, as exportações gerariam US$ 44,2 bilhões, contra US$ 26,6 bilhões sem controle, diferença de US$ 17,6 bilhões por safra. A oferta reduzida poderia elevar o preço da soja em até 49%, acrescentando 0,26 ponto percentual ao IPCA, afetando alimentos como óleo, leite e ovos.
"Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço da carnes, carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja", destacou a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho.
Métodos de controle e riscos
O estudo avaliou quatro doenças, cinco pragas e nove plantas daninhas, propondo quatro métodos de controle: biotecnologia, melhoramento genético, bioinsumos e defensivos químicos, além do manejo integrado. O uso de defensivos químicos, embora eficaz, levanta preocupações ambientais e de saúde.
"Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos, dependendo da toxicidade das substâncias e dos níveis de exposição. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade", alertou o pesquisador da Embrapa Robson Barizon.
Barizon explicou que organismos geneticamente modificados (OGM) podem reduzir ou aumentar o uso de agrotóxicos, dependendo da resistência incorporada. Ele ressaltou a falta de evidências robustas de riscos à saúde humana dos OGM aprovados, mas apontou possíveis impactos ambientais ligados ao uso intensivo de herbicidas.
"No caso dos OGM, aprovados para comercialização, não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde humana associados ao seu consumo. Os possíveis impactos ambientais estão relacionados principalmente às características da modificação genética e às práticas agrícolas associadas, como o uso intensivo de herbicidas em culturas tolerantes, que pode favorecer a seleção de plantas daninhas resistentes", explicou Barizon.
Regulamentação e registro de agrotóxicos
De 2005 a 2019, foram registrados 3.151 novos agrotóxicos no Brasil, porém apenas 20% eram de baixa toxicidade. Após a Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o ritmo de registros aumentou, com 663 novos produtos em 2024, frente a 555 em 2023.
O coordenador de Sustentabilidade da Croplife, Pedro Duarte, afirmou que o setor investe em estudos rigorosos para garantir a segurança dos defensivos aprovados.
"Para que um produto seja aprovado no Brasil, um defensivo químico passa por muitos estudos. Há um investimento muito grande do setor para poder garantir que aquele produto aprovado tenha a segurança, quando aplicado dentro das recomendações", disse Duarte.
Saúde pública
Dados da ONG Repórter Brasil, citados pelo Ministério da Saúde, registraram 73.391 casos de intoxicação por agrotóxicos entre 2015 e 2025, com 9.729 ocorrências apenas no último ano.