O presidente argentino Javier Milei ganhou destaque nas eleições presidenciais brasileiras ao ser citado como referência do "Plano Motosserra" adotado em 2023. O programa, que prevê cortes profundos nos gastos públicos, fim de subsídios e desvalorização do peso, tem sido usado tanto para elogios quanto para críticas nas campanhas de Flávio Bolsonaro e Lula da Silva.
Destaques:
- Milei implementou o "Plano Motosserra" com cortes de despesas e desregulamentação
- Flávio Bolsonaro adotou a narrativa de "tesouraço" no Brasil
- Eleições brasileiras em outubro de 2026, com debate sobre custos sociais
Ajuste econômico na Argentina
Após quase três anos no poder, Milei conseguiu equilibrar as contas públicas, com a arrecadação superando os gastos. A inflação recuou de 211,4 % em 2023 para 31,5 % em 2025, o menor nível em oito anos. O índice S&P Merval subiu quase 115 % em dólares em 2024, e o PIB registrou crescimento de 4,4 % no ano seguinte.
Entretanto, a recuperação trouxe custo social. O número de empresas que fecharam ou deixaram de registrar funcionários ultrapassou 32 mil, e o desemprego chegou a 7,9 %, o maior índice desde 2021. A pobreza voltou a atingir um terço da população, com relatos de escambo e empréstimos de curto prazo.
"Votei em Milei acreditando que ele traria mudanças para melhor, mas ele realmente me decepcionou", afirmou Pérez à agência Reuters.
Repercussão nas campanhas brasileiras
Flávio Bolsonaro, aliado de Milei, viajou ao Brasil em 25 de julho para lançar sua campanha, destacando a melhora dos indicadores argentinos. "Quando o presidente Milei assumiu o cargo, a Argentina estava falida. Inflação acima de 200 % ao ano. Mais da metade da população vivendo na pobreza", disse o senador.
"Então, chegou Javier. E cortou a própria carne do Estado com uma motosserra. Reduziu ministérios pela metade. Acabou com privilégios. Equilibrou as contas. E os resultados estão à vista de todos", acrescentou Flávio, em espanhol.
A coordenadora econômica da campanha de Flávio, Daniella Marques, elogiou o modelo argentino como exemplo de "capacidade de investimento" e "redução de burocracia e impostos".
Críticas de Lula e do PT
A campanha de reeleição de Lula passou a usar o caso argentino para evidenciar os efeitos sociais das medidas de ajuste. Vídeos do PT destacam a pobreza crescente e a reforma trabalhista aprovada em fevereiro, que permite jornadas de até 12 horas.
Durante o primeiro debate do segundo turno, Lula questionou Flávio sobre a adoção do modelo de Milei no Brasil. Flávio evitou responder diretamente, mas reforçou a necessidade de "consertar" problemas deixados por governos de esquerda.
"O risco‑país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta", declarou o ministro da Fazenda Dario Durigan em resposta a críticas de Milei ao governo Lula.
Debate econômico e social
Especialistas apontam que o ajuste fiscal profundo gera pressão sobre a renda das famílias. Federico Servideo, da Câmara de Comércio Argentino‑Brasileira, afirma que a contenção de despesas e a redução de subsídios impactam diretamente a demanda regional.
"A redução do gasto público e a interrupção de obras e repasses discricionários subtraem um componente de demanda que afeta a dinâmica econômica regional", explica.
O caso argentino ilustra o dilema entre estabilidade fiscal e custos sociais no curto prazo, tema central nas discussões eleitorais brasileiras.