Abstenção em Minas reduz 2,48 pontos e ajuda virada de Lula

A abstenção eleitoral em Minas Gerais caiu de 22,81% no primeiro turno (4 de outubro) para 20,33% no segundo turno, realizado neste domingo (25). O número de eleitores ausentes passou de 3.735.098 para 3.327.941, uma queda de 10,9% (407 mil eleitores a mais compareceram).

Mobilização em Grande BH e Norte de Minas foi decisiva

O cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, atribui a redução da abstenção à mobilização na Região Metropolitana de Belo Horizonte e no Norte de Minas. Ele destaca que o movimento não se repetiu com a mesma intensidade no Sul de Minas e no Triângulo Mineiro.

"Houve uma união muito peculiar e inusitada dos bem jovens com os bem idosos, que foram aqueles que não votaram no primeiro turno e que vieram aos montes nesse segundo turno", disse.

Ricci aponta que a campanha ganhou força nas três semanas que antecederam a votação, impulsionada por um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e pelas participações de Flávio Bolsonaro nos debates da Band e da TV Globo.

Rejeição à família Bolsonaro influencia o resultado

Para o cientista político Felipe Nunes, a mudança no resultado reflete o medo de um retorno da família Bolsonaro ao poder. Ele afirma que o primeiro turno funcionou como avaliação do governo Lula, enquanto o segundo turno se transformou em plebiscito contra Flávio Bolsonaro.

"Quando a eleição foi um sim ou não a favor do Lula, os mineiros votaram contra. Quando se tornou uma eleição plebiscitária em relação ao Flávio, os mineiros acabaram votando em favor da continuidade", explicou.

Lula recebeu 1,16 milhão de votos a mais no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro ganhou cerca de 464 mil votos em relação à primeira etapa.

Mobilização digital e perfil cauteloso do eleitorado

Nunes destaca a influência da mobilização digital, citando o Índice de Popularidade Digital (IPD) da Quaest, que mostrou Lula superando Flávio nas redes sociais no segundo turno. O deputado André Janones (Avante) também foi mencionado como impulsionador da campanha online.

"Essa mobilização de rede, que, claro, mobilizou o jovem a levar os avós para votar, fazer os pais votarem, foi, como eu disse, inédita. Um padrão de comportamento que a gente não conhecia no Brasil recente", declarou.

Abstenção ainda elevada apesar da queda

Mesmo com a redução, o índice de 20,33% ainda é considerado alto, já que o voto é obrigatório para a maior parte do eleitorado. Ricci interpreta a ausência como falta de identificação com os candidatos e com o sistema político.

"É uma falta de identidade com aquele que quer ser representante. Como vai ser representante se ele não quer me representar, ele quer se representar?", questionou.

Ele conclui que o problema vai além do desinteresse, apontando para uma crise de comunicação entre o debate político e as necessidades cotidianas da população.

"Eu acho que isso não é exatamente uma crise da democracia. É uma crise do sistema político que não consegue falar com o eleitor", concluiu.