O relatório "O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)", publicado pela FAO em julho de 2024, indica que 44,8 milhões de brasileiros ainda não conseguem pagar por uma alimentação saudável composta por cereais, frutas, verduras, leguminosas e proteínas, conforme recomenda a ONU.

Destaques:

  • 44,8 milhões de pessoas sem acesso a dieta saudável
  • FAO divulgou o dado em julho de 2024
  • Próximo passo: ampliar renda e programas de segurança alimentar

Desafio para o quarto mandato de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) celebrou a saída do Brasil do Mapa da Fome em julho de 2026, mas o novo desafio é garantir que a população tenha condições de adquirir alimentos nutritivos. A pesquisa aponta ainda 20,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025, queda em relação aos 39,7 milhões de 2021‑2023.

Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona o cenário às condições precárias de trabalho, como baixos salários e informalidade. "A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar", explicou.

Falhas nas políticas públicas

Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), destaca que a continuidade do atendimento ainda é insuficiente. "Uma pessoa em situação de rua chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘Fique aqui, você não precisa só de um curativo.’"

Custo da alimentação saudável em alta

A FAO calcula o custo de uma cesta de 11 alimentos que fornece cerca de 2.330 calorias diárias. Em 2025, o valor chegou a 4,89 dólares internacionais por pessoa ao dia, frente a 3,97 dólares em 2021. O aumento reflete a elevação dos preços de alimentos frescos, que sobem mais rápido que os ultraprocessados.

"O custo de uma cesta básica saudável no Brasil hoje seria de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo", diz Graziano.

Programas de apoio e perspectivas

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) compra produtos de agricultores familiares e os destina a vulneráveis, escolas e hospitais, contribuindo para a renda no campo e o acesso a alimentos. Especialistas apontam que a valorização do salário mínimo ainda não acompanha a alta dos alimentos, e que investimentos em pesquisa agropecuária permanecem desiguais, favorecendo commodities de exportação.

Para reduzir a vulnerabilidade, os analistas recomendam:

  • Elevar a renda das famílias vulneráveis
  • Ampliar e garantir recursos contínuos aos programas de segurança alimentar
  • Investir em produção de alimentos frescos e em pesquisa agropecuária diversificada

O Brasil, grande produtor de alimentos, ainda enfrenta o paradoxo de fome e insegurança alimentar em meio a excedentes agrícolas, exigindo políticas de Estado mais robustas para garantir o direito constitucional à alimentação.