A BYD inaugurou sua maior planta da América Latina em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, em outubro de 2025. Em menos de um ano, a unidade entregou mais de 100 mil carros elétricos montados com kits importados, que já figuram entre os modelos mais vendidos no país.
"Eles amam essa liberdade aqui da Bahia. Amam o calor humano", ressaltou Cássia Cotia, corretora local.
Destaques:
- Mais de 100 mil veículos produzidos em menos de um ano
- 457 funcionários estrangeiros (6% do quadro) na fábrica
- Produção nacional iniciará no fim de 2026
Expansão da produção e força de trabalho
A fábrica, ainda em fase de obras, conta com 7.618 funcionários diretos, dos quais 457 são estrangeiros, majoritariamente chineses. Registros da Polícia Federal apontam a emissão de 2.310 vistos de residência em Camaçari e Lauro de Freitas desde 2024, maioria temporários.
Impacto no mercado automotivo brasileiro
A presença da BYD marca a ascensão da China ao topo do mercado global de veículos elétricos. Segundo Rogélio Golfarb, ex-executivo da Ford e presidente da Anfavea, "O Brasil hoje é o maior laboratório chinês que você tem no mundo no mercado automotivo". A concorrência chinesa reduziu o preço médio de veículos leves novos 3,5%, para R$ 152,1 mil, conforme levantamento da Bright Consulting até junho de 2026.
"O carro que mais vende hoje é o Dolphin da BYD, que é o veículo elétrico. O sonho dos motoristas de Uber é ter um carro elétrico.", afirmou Golfarb.
Desafios trabalhistas e integração cultural
Apesar do ritmo acelerado de produção, trabalhadores apontam problemas de assédio moral. Júlio Bonfim, presidente dos Sindicatos dos Metalúrgicos locais, descreveu a pressão: "O assédio moral hoje é um problema sério dentro da BYD". Ele também comparou a velocidade da linha de produção à antiga Ford, destacando a diferença de escala.
"Eu tive a Ford, que teve 12 mil carros Courier enquanto treinava o pessoal durante dois anos e produzindo depois. A BYD já está produzindo, trocando o pneu com o carro a 180 quilômetros por hora", ilustrou Bonfim.
Vida cotidiana da comunidade chinesa em Camaçari
A comunidade chinesa, embora numerosa, está dispersa em hotéis e condomínios, sem formação de um bairro tradicional. Muitos trabalham no refeitório da fábrica, que oferece pratos chineses e brasileiros. A corretora Cássia Cotia observa que os chineses são “muito reservados” e trabalham intensamente, contrastando com o estilo de vida local.
A presença cultural se manifesta em placas de yakisoba com ideogramas e reuniões de Testemunhas de Jeová em mandarim. A interação acontece via WeChat, com mensagens traduzidas por moradores como Cotia, que também auxilia em tarefas cotidianas.
A BYD, ao substituir a antiga fábrica da Ford fechada em 2022021, simboliza a mudança de poder na indústria automotiva, refletindo a estratégia chinesa de eletrificação e verticalização que tem redefinido o cenário global.