A coalizão Vida em Conta entregou o documento “10 Propostas para um Novo Ciclo de Desenvolvimento no Brasil” às campanhas dos dois candidatos à Presidência. O texto converte as diretrizes de um projeto de país justo, sustentável e soberano em compromissos concretos para o próximo governo, colocando a redução das desigualdades e a melhoria da qualidade de vida como prioridade.

A proposta reconhece avanços desde 2023, como a queda da inflação, geração de empregos e retomada do investimento público, mas alerta para desigualdades profundas, riscos climáticos e dependência tecnológica como desafios estruturais.

"Reduzir desigualdades requer investimento público e capacidade de implementar políticas de longo prazo. Em vez de retornar a uma agenda de encolhimento do papel estatal, o Brasil precisa usar seus instrumentos de planejamento, financiamento e investimento para ampliar serviços essenciais, reduzir o custo de vida, gerar empregos de qualidade e fortalecer suas capacidades produtivas e tecnológicas", afirma Maiara Folly, diretora executiva da Plataforma CIPÓ.

Estratégia de metas e indicadores

O documento propõe uma estratégia permanente com metas de renda, riqueza, gênero, raça e território, orientando planejamento, orçamento e avaliação de políticas públicas, com foco nas regiões e municípios mais vulneráveis. No exterior, sugere que o Brasil lidere a criação de um painel internacional sobre desigualdade, inspirado no IPCC.

Mobilidade urbana e financiamento

Propõe a criação de um Fundo Nacional de Mobilidade Urbana para implantar a Tarifa Zero no transporte coletivo, priorizando a conexão entre periferias e centros. Entre as fontes de financiamento, destaca a adaptação do vale‑transporte, onde empregadores recolheriam contribuição vinculada à folha salarial para o fundo.

Política nacional de cuidados

A proposta inclui ampliação de creches, "cuidotecas", centros‑dia e educação em tempo integral, visando reduzir a sobrecarga das famílias, sobretudo das mulheres, e valorizar os profissionais de cuidado com formação, proteção social e remuneração adequada.

Reforma tributária e combate à evasão

Propõe o aumento da alíquota mínima efetiva do Imposto de Renda para os super‑ricos, combate à evasão e revisão de regimes especiais ligados a setores nocivos à saúde e ao meio ambiente, mantendo simplificação para micro e pequenas empresas.

"Não existe contradição entre responsabilidade fiscal e bem‑estar. A questão é quem paga e para onde vai o dinheiro. Hoje, quem ganha menos compromete mais da renda com impostos, transporte e juros. Corrigir isso, cobrando mais de quem está no topo e revendo subsídios ineficientes, é o que abre espaço para crescer com mais justiça", afirma o economista Marco Antonio Rocha, professor da Unicamp e diretor do Transforma.

Subsídios, clima e indústria

O documento recomenda revisão sistemática de subsídios e incentivos fiscais, condicionando-os à economia de baixo carbono e à redução de incentivos a combustíveis fósseis. Os recursos seriam destinados à adaptação climática em áreas urbanas vulneráveis e a uma política industrial seletiva com metas verificáveis e contrapartidas em empregos, além de infraestrutura digital pública.

Jornada de trabalho e proteção social

Com o fim da escala 6x1, pede a regulamentação de nova jornada sem redução salarial, garantindo que o tempo livre se converta em descanso, saúde e lazer. Também propõe a manutenção de aumentos acima da inflação, preservando o piso nacional como referência para aposentadorias e benefícios sociais, e a redução do peso de moradia, energia e transporte no orçamento familiar.

Política territorial

Sugere articulação de reforma agrária, combate à grilagem e integração de cadastros de terras, fortalecendo a agricultura familiar, a segurança alimentar e a inovação em sementes, com instrumentos tributários para enfrentar a concentração fundiária.