Finlândia enfrenta crise fiscal e pode cortar serviços públicos

Finlândia, eleita o país mais feliz do mundo por nove anos seguidos, registra dívida pública de 90,3% do PIB no segundo trimestre de 2026 e déficit fiscal projetado em 4,2% do PIB para o mesmo ano. O governo de Petteri Orpo, no poder desde junho de 2023, anunciou a meta de economizar 9 bilhões de euros nesta legislatura, enquanto a União Europeia pressiona para que o déficit fique abaixo de 3%.

"Mas, segundo economistas, quem vencer as próximas eleições terá que promover cortes muito mais profundos.", afirmou.

Destaques:

  • Dívida pública atinge 90,3% do PIB
  • Governo Orpo busca cortar 9 bilhões de euros
  • UE deu prazo até fim de 2028 para corrigir déficit

Pressão da UE e metas de ajuste

A UE abriu procedimento por déficit excessivo contra a Finlândia em janeiro e concedeu até 2028 para que o país reduza o déficit e a dívida dentro dos limites do bloco. O Conselho da UE exige déficit abaixo de 3% do PIB e dívida pública limitada a 60%.

"As estimativas atuais variam entre 8 bilhões e 11 bilhões de euros", afirmou Jarkko Kivisto, assessor do departamento de política monetária e pesquisa do Banco da Finlândia.

O parlamento finlandês, exceto um partido, apoiou um mecanismo de contenção da dívida que visa reduzir o déficit para 2% do PIB até 2031. O Partido da Coalizão Nacional, liderado por Orpo, promete cortes adicionais de 9 bilhões de euros caso o primeiro‑ministro consiga um segundo mandato.

Impacto nos serviços públicos e benefícios

Orpo pretende alcançar a meta de ajuste sem aumentar impostos, o que implica cortes em saúde, assistência social e regimes de previdência. Os social‑democratas defendem combinar cortes de gastos com elevação tributária, mas o governo mantém a postura de não onerar a carga fiscal.

"O déficit é tão grande que seria necessário um pacote que incluísse aumentos de impostos e cortes de despesas.", alertou Kivisto.

"Embora a proporção de pessoas em risco de pobreza na Finlândia seja inferior à média da UE, o desemprego é o mais alto entre os países do bloco.", destacou.

Em agosto, a taxa de desemprego chegou a 10,3%, com 23,3% entre jovens, acima da média da UE. O consumo das famílias já registra queda, e Lauri Holappa, diretor do Centro Finlandês de Nova Análise Econômica, avisou que a austeridade poderia reduzir ainda mais a poupança e o consumo privado.

"Mais de um quarto da população trabalha no setor público. Portanto, se esses trabalhadores enfrentarem a ameaça de demissão, a taxa de poupança aumentará e o consumo privado voltará a cair", afirmou.

Gastos militares e energia

Desde a invasão russa da Ucrânia, a Finlândia aumentou os gastos militares para 3,2% do PIB, próximo da meta da OTAN de 3,5%. O país já havia adquirido 64 caças F‑35A por 8,4 bilhões de euros e elevou despesas de defesa de 4,5 bilhões para mais de 8 bilhões de dólares anuais.

A transição para energia renovável e a entrada em operação da usina nuclear Olkiluoto 3 ajudaram a conter a crise energética, apesar do aumento de 50% nos custos de energia importada nos primeiros meses da guerra na Ucrânia.

"Ainda assim, o banco central alertou durante o verão europeu que a manutenção dos preços elevados do petróleo e do gás resultaria em "menor crescimento econômico e inflação mais alta" em 2027.", informou.

Reação dos investidores

As agências de rating mantiveram a perspectiva de crédito da Finlândia estável, exceto a S&P, que mudou para negativa em abril sem rebaixar a nota. Em 6 de outubro, o prêmio de risco da Finlândia sobre a Alemanha foi de 0,38 ponto percentual para empréstimos de dez anos, indicando que os investidores ainda consideram a dívida finlandesa segura, desde que não ocorram novos choques externos.

A combinação de desafios fiscais, alto desemprego e aumento dos gastos de defesa coloca em risco a continuidade da imagem de país feliz, que pode ser novamente confirmada em março de 2027.