Nem as famílias de renda mais alta escaparam do avanço da inadimplência no último ano. Dados do Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central (BC) mostram que, em agosto, a taxa de inadimplência cresceu 38,8% entre quem ganha de 10 a 20 salários mínimos e 35,8% entre quem tem renda acima de 20 salários mínimos, em comparação ao mesmo mês de 2025.

"O cartão de crédito é uma faca de dois gumes. Ele pode ajudar no orçamento se a pessoa conseguir se organizar. Mas, infelizmente, a maior parte da população ainda enxerga o cartão como uma oportunidade de esticar o orçamento no curto prazo, e o resultado disso é um juro exorbitante", afirmou Fabio Bentes, economista‑chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Destaques:

  • Inadimplência alta renda +38,8% (10‑20 salários) e +35,8% (>20 salários)
  • Fabio Bentes (CNC) alerta sobre risco do cartão de crédito
  • Próximo passo: monitoramento de crédito rotativo em setembro

Crédito rotativo e juros elevados

Especialistas apontam o crédito rotativo do cartão como ponto de atenção. Dados preliminares do BC para setembro indicam taxa média de 451,7% ao ano (15,29% ao mês). O parcelamento da fatura chegou a 193% ao ano (9,37% ao mês).

"Além dos juros altos que acabam deixando o consumo e o crédito mais caro, também temos uma mudança comportamental do brasileiro, que hoje tem um acesso muito mais fácil ao consumo por conta da internet", disse Alexandre Amorim, planejador financeiro CFP da Planejar.

Expansão do crédito e volume concedido

O estoque de operações de crédito para pessoas físicas cresceu 9,9% nos 12 meses até setembro. No rotativo, o volume concedido aumentou 12,6%, totalizando R$ 37,3 bilhões. Já o parcelamento da fatura avançou 8,4%, atingindo R$ 17,6 bilhões.

Endividamento geral das famílias

A CNC divulgou a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) em 5 de outubro. 81,6% das famílias declararam dívidas, leve queda em relação a setembro (81,7%). O percentual de famílias com dívidas em atraso foi de 29,3%, reduzindo 0,3 ponto percentual.

Entre as faixas de renda, a proporção de famílias endividadas caiu para quem ganha até 3 salários mínimos (84,5%) e para quem recebe mais de 10 salários mínimos (71,5%). Já aumentou entre quem ganha de 5 a 10 salários mínimos, passando de 77,9% para 79,3%.

Contexto macroeconômico

A inflação medida pelo IPCA‑15 subiu 0,32% em outubro, acumulando 4,62% em 12 meses, acima da meta de 4,5%. A taxa Selic está em 13,75% ao ano, após ter caído de 15% no início de 2026, mas os efeitos do crédito caro ainda pesam nos orçamentos.

"Além disso, o brasileiro tem o hábito de pagar o preço da facilidade. No caso do crédito, esse preço é a taxa de juros elevada do cartão de crédito", concluiu o economista Fabio Bentes.