A disseminação de listas que identificam empresas, comerciantes, profissionais liberais e trabalhadores para boicote por preferências políticas tem gerado reação de entidades representativas e órgãos da Justiça.

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) foi uma das primeiras a se manifestar, condenando a circulação de listas que associam estabelecimentos a posicionamentos políticos e incentivam consumidores a deixá‑los de frequentar.

"A divulgação dessas listas pode configurar ato ilícito e sujeitar os responsáveis a ações na Justiça. Do mesmo modo, o consumidor é livre para escolher onde vai comer e beber. Nenhum estabelecimento pode discriminar ou se recusar a atender alguém em função de seu posicionamento político ou ideológico", afirmou a nota da Abrasel.

Reações de órgãos da advocacia e do trabalho

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio de sua seccional em Tocantins, publicou nota de repúdio ressaltando que a liberdade de manifestação e a pluralidade de ideias são pilares do Estado Democrático de Direito e que atos de discriminação podem gerar responsabilização legal.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) identificou uso de plataformas digitais para forçar empresários a “vigiar, expor, deixar de contratar e demitir funcionários por causa do voto”. Em resposta, procuradores ingressaram com ação civil pública contra a Meta, proprietária do Instagram, Facebook e Threads, exigindo a retirada do ar dessas publicações.

"Publicações de empresários, influenciadores e até parlamentares orientam vasculhar as redes sociais de trabalhadores para descobrir em quem votaram e, no caso de a opção ser diferente do patrão, mandá‑los embora", disse o MPT.

Dados e denúncias

O procurador do trabalho Maurício de Mello informou que o MPT recebeu 1.140 denúncias de assédio eleitoral nos três dias que se seguiram ao pleito, totalizando 3.080 desde o início da campanha. Quase 30% das denúncias ocorreram após a definição dos resultados, o que ele considerou “uma preocupação muito grande”.

O presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, destacou que os efeitos das práticas atingem trabalhadores assalariados, autônomos e pequenos estabelecimentos comerciais.

Comparações históricas

A ex‑deputada federal gaúcha Manuela d'Ávila (PCdoB) divulgou vídeo comparando as listas atuais ao boicote econômico contra comerciantes judeus na Alemanha nazista, afirmando que a prática constitui “autoritarismo” que deve ser combatido desde o início.

"Sabe como começou o boicote aos judeus na Alemanha nazista? Com listas. Em 1933, os nazistas organizaram um boicote nacional contra estabelecimentos e profissionais judeus. Eles identificavam quem eram essas pessoas, onde trabalhavam e quais lojas e negócios lhes pertenciam", disse a ex‑deputada.

O professor de História Contemporânea Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, corroborou a referência, explicando que a organização de listas é “prática comum” a regimes autoritários, inclusive à ditadura militar brasileira, resultando em cassações, exílios e mortes.

"Na Alemanha nazista, esse processo foi claramente colocado em prática e nós o chamamos, historicamente, de processo de fascistização: a ocupação das instituições a partir do expurgo de pessoas consideradas perigosas para o regime", explicou.