Decisão judicial unânime

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região aprovou, nesta semana, o pedido da família de Tancredo Neves para acessar documentos sigilosos sobre a internação no Hospital de Base, em Brasília. A medida visa esclarecer dúvidas sobre a suspeita de erro médico que teria contribuído para a morte do presidente eleito.

"Quando ele veio a óbito, os médicos não tiveram coragem de declarar o óbito, eles chamaram o médico americano [Warren Zapol], que veio ao Brasil e avaliou", afirmou Juliana Porcaro.

Destaques:

  • Decisão unânime do TRF‑1 autoriza acesso a prontuários
  • Família de Tancredo Neves solicita documentos ao CFM e CRM‑DF
  • Próxima etapa: liberação de prontuários e lista de médicos

Contexto histórico e médico

Em 21 de abril de 1985, Tancredo Neves morreu um mês após ser internado com diverticulite. O caso permanece cercado de controvérsias e teorias da conspiração. A decisão judicial pode abrir caminho para a divulgação de informações que até então eram protegidas pelo sigilo médico.

A família, representada pela advogada Juliana Porcaro, havia pedido ao Conselho Federal de Medicina (CFM) e ao Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM‑DF) a liberação dos documentos, mas a solicitação foi negada com base no sigilo da relação médico‑paciente, levando o assunto à Justiça.

"Se há uma advertência, é porque houve um processo administrativo no conselho e algo foi considerado errado. E é a esse 'algo' que a família quer ter acesso", afirmou Juliana.

Pontos críticos levantados

A pesquisa do escritor Luís Mir, iniciada em 2010 com o livro O paciente, apontou quatro fatores que sugerem erro médico:

  • Cirurgia imediata: procedimentos de emergência foram realizados apesar de a diverticulite normalmente exigir cirurgia eletiva.
  • Técnicas questionáveis: mais de 30 acompanhantes estavam presentes na sala de cirurgia, prática proibida por segurança.
  • Advertência: médicos envolvidos receberam advertência do CRM‑DF, cujo motivo permanece desconhecido.
  • Falhas na recuperação: protocolos de pós‑operatório podem ter sido inadequados, contribuindo para complicações.

Repercussão familiar e política

Juliana Porcaro ressaltou que a divulgação dos documentos não serve apenas ao interesse da família, mas ajuda a contar a "história de uma nação". Ela também relatou que o ex‑presidente José Sarney confirmou receios sobre assumir a presidência diante da delicada situação de saúde de Tancredo.

"Ele confirmou que teve esse receio de assumir a presidência, porque foi muito delicado. Ninguém sabia se isso ia ser bem aceito", comentou Sarney.

Com a posse de Sarney, vice na chapa de Tancredo, o Brasil iniciou um novo ciclo político, marcando a transição para a era dos presidentes civis após duas décadas de regime militar.